Converti-me na juventude, já na fase adulta definitivamente, mas no estrato jovem dela. Foi no momento em que acho que pela primeira vez ouvi a mensagem bíblica da salvação, o evangelho de que — ai! — eu sou pecador, eu sou todo merecedor da desgraça e do desamor do Deus único. Mas ele me amou primeiro, de modo que deu um meio de eu ser resgatado do destino eterno no lago de fogo: ele enviou Jesus, seu Filho, para morrer por todos os meus pecados. É só eu receber essa oferta, que é de graça, feita por amor e sem qualquer interesse escondido, para ser salvo: para ser limpo do meu mal diante do céu, ter a vida eterna, receber desde já uma nova vida.
Esse é mais ou menos o modo como me ocorreu falar pessoalmente da salvação, descrita em 1ª Coríntios 15:1-4. Foi nesse sentido o que recebi em pregações da pura palavra de Deus aos meus 25 anos, uma mensagem que eu nunca, nunquinha, pensara existir algo assim, mas que no meu coração (pelo Espírito Santo, hoje sei) se mostrou como a clara, irrefutável e insofismável verdade acerca do único relacionamento do homem para com Deus: afastado e condenado, se no estado natural; como filho, aceito e de casa — da casa de Deus, da família de Deus — para sempre, uma vez que se recebe o Salvador Jesus, pelo “sim” a esse convite, também chamado, esse “sim”, de fé salvadora.
No mesmo local passei a estar reunido após a salvação, junto ao mesmo conjunto local de crentes em meio ao qual ouvi, convivi e vim a me converter. Com altos e baixos, mas com um amor crescente pelo meu Deus, desejo de servir e sede, muita sede da Palavra, querer conhecê-la, entendê-la e praticá-la. Eu me cria no meio correto, com a forma correta de viver a Palavra — apesar dos meus erros pessoais que percebia ao longo do caminho, alguns os quais procurei voltar para consertar, muitos outros que, por conveniência ou pela real desnecessidade ou impossibilidade de atuar no reverso, apenas rapidamente os reconheci diante de Deus e segui.
Estou sendo levado a caminhos que não planejei para este escrito. Vamos continuar.
Estava convicto da forma de reunião dessa igreja local, daquilo em que conjuntamente críamos. Acima de tudo, a confiança de que o Senhor Jesus era reconhecido em sua plenitude e adorado conforme a esse entendimento, e ao Espírito Santo era dado o seu lugar na assembleia, para atuar na revelação da Palavra de Deus — nessa única, já escrita por completo. A alegria manifesta nos corações pela percepção da alegria de Deus em face da obediência dos seus servos. O motivo e o propósito nisso, para um viver cheio do bem de Deus, nos altos e baixos da vida de cada um e da igreja.
Algumas questões humanas, no entanto, foram se revelando, e se manifestaram com tristeza porque eram perenes nesse meio, persistentes, mas ficaram escondidas até que não mais puderam ficar assim, porque... bem, por partes.
Nesse meio, nessa igreja local, professava-se que toda forma de organização humana, contrária à Palavra de Deus, não tinha lugar. Seria pecado, levando a divisões, lugar para orgulho, desconfiança do governo e do agir de Deus para o seu povo celestial. Por isso, nem nome adotava.
Agora, não adotar um nome — que só divide alguns crentes do restante, que são parte do único corpo e da única noiva de Cristo — é um bom sinal. Mas não é o suficiente para um viver sadio da igreja local. Nesta, lemos na Palavra uma ordem — não humana, mas divina — de homens oficialmente designados como supervisores (que atentam para a igreja) e, outros, como serviçais — na tradução bíblica mais usada, mais conhecidos pela transliteração das palavras gregas para eles: os presbíteros (ou bispos) e os diáconos. Essa forma de organização é muito conhecida no novo testamento (por exemplo, Filipenses 1:1), inclusive com orientações claras sobre quem pode ocupar tais posições, receber as atribuições pertinentes a essas funções (1ª Timóteo 3:1-7 e 3:8-13).
Nessa igreja, entretanto, não havia nem diáconos nem presbíteros estabelecidos. O entendimento era o de que, na Bíblia, os apóstolos estavam presentes, ou davam autoridade a certas pessoas, a fim de ajudar a estabelecer quem ocuparia tais posições, especialmente o presbitério (por exemplo, Tito 1:5; Atos 14:23). Hoje, como não temos mais os apóstolos, não teríamos base bíblica que nos autorizasse a nomear tais homens.
Outro motivo (para essa ausência) era o de que, afinal de contas, essas posições seriam apenas funções, pelas quais os que a exercem não precisam receber um nome ou um “título”, muito menos crachá ou carteirinha, pois são colocados pelo próprio Espírito Santo em seus lugares (Atos 20:28), e à igreja caberia apenas reconhecê-los (1ª Tessalonicenses 5:12).
É uma posição defensável. Não, porém, quando se abre mão das posições bíblicas reconhecidas para, pela ordem e ideia humana, separar um conjunto de irmãos em um órgão de funções várias — não delimitadas especificamente, mas que se poderia chamar de deliberativas.
Por anos e anos, nunca soube que existia esse grupo de pessoas nomeadas entre si para ocuparem uma tal posição, até que um dia foi anunciado à igreja que um membro fora retirado do meio por causa de pecado sexual. Não foi a igreja que trouxe a disciplina do irmão (como ensina 1ª Coríntios 5), ela apenas foi comunicada, informada da decisão do conselho — este era o nome que davam ao órgão, ao grupo.
Se ele tinha tal poder, por que não aparecia, não era conhecido das demais ovelhas? Aparentemente, assumiam, esses homens, posição de supervisores, porém sem se arrogar, por alguma razão, esse nome, e nem mesmo se ater aos pressupostos bíblicos caso se tratasse de presbíteros.
Quando alguns irmãos procuraram “o conselho” para suscitar o erro de uma ordem humana no seio da igreja local, não houve intenção de abandonar a prática. Ela foi justificada, alargadamente, em algum conselho ou concílio encontrado no livro de Atos. Ofereceram, a algum ou alguns irmãos que a traziam a questão, um lugar no conselho, para demonstrar a transparência do trabalho realizado entre eles em prol da igreja. Um aceitou até, o outro não, e ao fim ambos deixaram de frequentar as reuniões no local. Eu, depois — não fiz parte de nenhuma das partes; apenas assisti —, me retirei também, por essa e outras razões; porque um erro, uma vez conhecido, mas ainda assim aceito, está sempre acompanhado.
Essa saída, porém — e este é o ponto deste escrito — não é de graça. Vem acompanhada de solidão. Apesar de feita com convicção de verdade, no caso veio acompanhada de amargor que ou não deve existir ou, então, não deve persistir.
Esse afastamento, então, conquanto tem sido doloroso, é objeto da mão de Deus para fazer do mal bem (não significando, só por isso, aprovação). Pelo seu amor, ele traz maturidade, tolerância para com a imperfeição, sim, mas intolerância e condenação para o mal consciente, a corrupção. “Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1ª João 5:2).
Certa tarde de domingo, poucos meses atrás, vagueei-me de carro disposto a entrar na primeira igreja que visse. Procurando um lugar, um grupo de crentes com o qual cultuar a Deus agradavelmente, na comunhão que ele quer. Na verdade, no meu egoísmo e necessidade, apenas querendo ouvir a Palavra. Pois achei um lugar, cheguei no tempo. Os louvores me puxaram, a Palavra exposta falou ao meu coração. O amor, o acolhimento foram decisivos para me motivar a voltar, e assim frequentei semanalmente.
O modo de culto me causou algumas estranhezas, como mulheres orando sem véu, “glórias” e “aleluias”; mas, como reaprendendo as prioridades, isso podia ser visto apenas como preferências (no caso das formas de adoração) ou, então, como secundário, que não abala o fundamento (como o diferencial entre irmãs e irmãos na assembleia). No demeais, eu presenciei irmãos amorosos, a Palavra expressada como única verdade do Deus triúno, louvores sãos... mas também não fazia perguntas. Era muito edificado, meu dia a dia, após estar frequentando os cultos, eram regados com maior percepção da presença e da graça de Deus. Novamente, apesar das diferenças de entendimento, e até erros doutrinários, vi-os no devido lugar, como feitos não em afronta, mas em sinceridade, e tratando-se de assuntos de menor nível — secundários — dentro da revelação de Deus. Como eram transparentes, só esse ponto já foi mais confortador do que saber tardiamente de comportamento doutrinário escuso em outro lugar.
Assim que, dispondo-me a ficar, perguntei como faria para participar financeiramente, como mandamento este que é para todo crente pela igreja — pois, desde que saí, deixei de contribuir. Soube que teria de fazer um cadastro com nome, CPF e algo mais, e me passariam a chave pix da sede da igreja, em Vitória. Era assim para ter controle, relatório mesmo, dos dízimos. Ok, ok. Como estava planejada a contribuição apenas a partir do próximo auxílio que receberia, deixei para ver isso — inclusive a possibilidade de dar com a mão direita sem que a esquerda soubesse de nada — mais para a frente.
Mas, apesar de todo o aparente bem no meu viver — com altos e baixos — a partir daí, e de ver o poder e o amor de Deus atuando naquelas vidas — o fato é que me faziam sentir especial; eis novamente o meu egoísmo, minha própria tentação —, eu tinha dúvida, bem no fundinho do meu coração. O tempo longe, e as decepções que me levaram a ele, me mostraram o dever de confiar em Deus, pessoalmente e intimamente, e no discernimento que, por sua graça, ele me tem dado, se tão somente eu tiver a coragem de usá-lo, e usá-lo sabiamente. Por isso, pedi que ele me mostrasse, muito claramente, se havia algo errado nessa igreja da qual eu queria, e estava caminho para, participar.
Quanto ao amor, quanto ao poder, sei que Satanás não tem o primeiro, e o segundo só na medida em que o Todo-Poderoso permite que ele tenha. Mas que, ainda assim, tão limitado na coleira de Deus, e tão sem amor, ele é supercapaz, e muito inteligente, para enganar o ser humano de que há amor e poder onde não há. Falsas alegrias, satisfação que em algum momento — que seja antes da morte — se mostrará ilusória. Por isso, a percepção, os sentidos, não devem enganar o salvo, e Deus não o permitirá se tão somente pedirmos a sua vontade. Porque Satanás se mostra, se quiser, como anjo de luz e como ministro de justiça (2ª Coríntios 11:14-15).
Por isso, sem desconfiar de nada, mas desconfiando pelo discernimento de procurar o bem de Deus, pedi para que, de uma vez, se houvesse, ele me mostrasse naquela noite em que novamente eu ia se algum erro havia ali, incompatível com a fé.
Ora, sabemos, eu sei, que a salvação é um presente de Deus, dado só pela graça. É diferente das obras, pelas quais, desde sempre, o homem quer, por seus esforços, se fazer digno diante de Deus. Sabemos também que, uma vez postos nas mãos salvadores de Jesus, nem Deus nos pode tirar dela, nem nós, nem a tribulação, nem a fome, nem a tristeza, ou os anjos, ou o presente, nem o porvir. É uma salvação eterna, que, recebida, não faz parte de nós, não é nosso jogo; é, inteiramente, de Deus, de quem, uma vez por todas, só nos coube aceitar, pelo “sim” da fé (por exemplo, João 10:26-30; Romanos 8:35-39).
E assim que, após a palavra em João 1:35-39, o pregador daquela noite — que nunca tinha visto ali, foi-me dito que veio da igreja do centro, sendo que a denominação tem mais de 40 lugares em Curitiba e região — veio direto apertar a minha mão. Possivelmente percebeu meu olhar de dúvida, pois eu queria mesmo lhe pedir esclarecimento sobre visão ser um dom do Espírito Santo, como ele afirmou na exposição; que efetivamente perguntei, e fui orientado e edificado.
Do nada, sem qualquer percepção sensível do céu ou do Espírito Santo — mas creio que foi ele —, houve oportunidade de emendar delicadamente uma outra pergunta, uma essencial à fé, um fundamento inegociável da verdade. Que eu não tinha planejado, nem sequer pensado, senão que surgiu na oportunidade daquele momento. Eu perguntei se não havia uma declaração de fé, pois não encontrei no site, já que é uma denominação, com princípios e organização humana centralizados. Neste momento, uma pessoa próxima, que estava ocupada com outra, só ouvia. Emendei a esse novo pregador, estudioso e solícito: para saber, por exemplo, se a salvação pode ser perdida, porque em algumas igrejas pentecostais a salvação pode-se perder. Ele pôde apenas repetir minha pergunta, reformulando, para confirmar que havia entendido bem: então você compreendeu que aqui trazemos o Senhor Jesus como o Salvador, e que recebemos essa salvação, a vida eterna, pelo seu sangue derramado na cruz. Aí é se, depois que recebemos a salvação, se ela pode ser perdida? Isso, exato, essa é a pergunta. Imediatamente o homem (pois hoje tenho dúvida sobre chamar de irmão, embora aparente sinceridade e vida reta) deixou a pequena distância que o separava da nossa conversa e não deixou o pregador responder. Falou que não tinha declaração de fé, pois era ensinado aos poucos em seminários, e que eu podia vir a assistir etc.
Essa não resposta foi o suficiente para eu cavar um pouquinho na internet. O silêncio deliberado foi mais eloquente do que seria a mais perfeita resposta verbal, e somou-se ao que então pude encontrar da organização na internet. Para eles, Jesus não fez nada, porque a salvação, a cada momento, depende o tempo todo do que estamos fazendo, e não do que Jesus fez por nós.
Por que o mais essencial e básico do cristianismo, a própria essência do evangelho — que Jesus veio para nos salvar, e ele, quando salva cada um, é de uma vez por todas —, é tão difícil de entender, de ser aceito? Sei que é um tesouro precioso a santa verdade, e ela me libertou e sou feliz por ela. Mas o peso de graça, e de responsabilidade, deve se multiplicar por 100 ao conhecer, face a face, almas que talvez até busquem com sinceridade, mas que, esforçadas, estão sendo conduzidas sob o empréstimo do nome de Jesus, mas num caminho errado. Confiam em si mesmos e em requisitos humanos para a vida eterna. Não fosse esse duro e triste afastamento que amargo, eu não teria essa importante noção do que está acontecendo no mundo, até mesmo no “mundo” cristão ou dito cristão. Satanás não descansa, e os servos de Deus também não devem. O fim se aproxima, o Senhor Jesus vem.